Sinto um arrepio. Julgo ouvir o som do mar a bater nas rochas, os meus pés a caminhar sobre a areia e a brisa marinha a trespassar me a cara, o peito, a alma. Parece uma baboseira dizer isto, não há praia há minha beira e o mar encontra-se a quilómetros de distância. Nunca to disse mas sempre gostei do mar, sabes? Da serenidade transmitida sempre que o olho, da sua linda cor azul, do cheiro da maresia e do peixe acabado de pescar. Deito me na relva outrora verde e olho o céu. Não está limpo mas por entre as muitas nuvens consigo ver um azul bonito. Não é o azul do mar mas pelo menos é azul, é bonito. Fico a olhá-lo. É mesmo bonito o céu, é azul. Faz me lembrar o elástico de cabelo que te dei um dia, que era azul, de um azul bonito. Sorrio. A minha alma está feliz, viu o azul mais uma vez. Contudo, sinto a apertada e um arrepio percorre me novamente. Tento chorar mas não consigo, aliás nunca sou capaz de o fazer. Tento perdoar te mas é impossível. Impossível, uma palavra que eu nunca usava. Agora faço muitas coisas que não fazia antes. Deixaste me sozinha e nem olhas te para trás quando te pedi que ficasses, que não partisses. Gritei te que te amava. Menti. Vai para além de amar, acredita. Mas tu, tu deixaste me, partiste, voaste. Ganhaste as asas que tanto querias, desde que me lembro de ti. Volto a olhar o céu. O pôr-do-sol é tão bonito. Concentro me nele. Tu sempre foste o belo, eu sempre invejei a tua beleza. Olho o céu, já não está azul. Tingiu-se de laranja, a tua cor preferida. Faz-me lembrar outro elástico que te dei, dessa mesma cor, um que tu usaste no pulso até eu te pedir que o tirasses pois já não fazia sentido. Ele já não te fazia lembrares de mim. Quero partir, quero seguir-te, quero amar-te. Nunca preferi viver à beira dos pássaros, sempre desejei desperdiçar a minha vida por desejar ter asas. Sempre quis voar.
O mar fica lá longe mas eu continuo a ouvir o seu bater nas rochas, o meu som predilecto. Já não vejo o azul do céu. Será que o mar ainda é azul? Preciso de o ver, tenho saudades. Parto em direcção ao céu, que se tingiu da tua cor favorita roubando a minha, tal como tu me tingiste da tua vida levando o que da minha sobrava. Olho em frente, para um campo que já não é verde, já não é nada. Afasto me. Estou a voar. Vou pintar o céu da cor do teu sorriso. Vou ao mar, ver os peixes e nadar. Tinha saudades de voar assim. Era importante para mim voar antes de te conhecer, era importante o mar, era importante viver. Agora sabes a minha conclusão, a mais importante de todas? Descobri que amo tudo isto mais do que tu algum dia me amarás a mim. Apesar da tua beleza que eu tanto invejo e que nao possuo, eu tenho uma qualidade que tu não tens, mais importante que a se ser belo, mais importante que tudo o resto. Sei dar valor às pequenas coisas, sei arrepender me dos meus erros, sei mudar e melhorar.
E sei amar.

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